Partindo de um período de imersão na cidade de Évora, vivenciado pela artista e investigadora em 2013, reúnem-se condições para analisar o processo criativo que se desdobrou em registro fonográfico e espectáculo e que teve como base a memória da Inquisição em Évora (sécs. XVI-XVIII), a fim de estruturar uma metodologia de criação artística atrelada ao Património Histórico, que será experienciada por outros artistas.
Comecemos pelo conceito pilar desse trabalho que é a Conservação Criativa (Rodrigues, 2019), pois ele nos abre a percepção para a conservação e agregação de novos valores a bens patrimoniais, encontrando novas utilidades e funções para o Património Histórico, o que abarca a nossa investigação ao ver no Património um disparador de novos estímulos para a criação artística, tanto na relação da obra de arte a uma esfera social (memória), quanto no sentido de provocar o artista com novos estímulos de linguagem e estéticos (imaginação), pois parte da Arquitetura para a criação no âmbito das Artes da Cena. Para isso, há um conceito e uma metodologia essenciais para alcançar essa dimensão no fazer artístico: a Autoetnografia e a Deriva. Acreditando na necessidade de tornar a experiência patrimonial mais pessoalizada e afetiva, temos a Autoetnografia (Adams, Ellis, Jones, 2015; Chang, 2008) que entrelaça a dimensão individual à coletiva através da análise de experiências pessoais conectadas a fenômenos sociais. Já no âmbito da capacidade criativa que o património pode evocar, temos a Deriva (Debord, Jacques, 2003), que trata-se de um vagar pelo espaço urbano sem um trajeto pré-definido, que nos coloca em contato com a cidade através de um viés perceptivo (Moya Pellitero, 2007; Merleau-Ponty, 2018) e simbólico (Pallasmaa, 2013) e nos permite acessar a sua capacidade de evocar imagens (Lynch, 2011).
Assim, através de laboratórios corporais dirigidos o artista da cena pode conectar-se com os conteúdos internos e externos captados na relação com a cidade adentrando o campo da memória individual e coletiva (Ricoeur, 2008; Halbwachs, 1990), e da imaginação (Durand, 2012; Bachelard, 2001; Sartre, 2008), ambas representações daquilo que está ausente.
Tendo o património e o artista (Stanislavski, 1994; Grotowski, 2010) como interlocutores entre memória e imaginação, acreditamos que o artista possa ser um meio para perlaborar memórias coletivas pouco significadas e que constituem lacunas na memória histórica do lugar, oferecendo novos dispositivos para a interpelação, conservação e valorização do património histórico, além de encaminhá-lo para novas possibilidades artísticas e criativas, pois, ao penetrarmos na introspecção que a cidade histórica nos oferece podemos encontrar os nossos próprios arcabouços, e através deles conectarmo-nos com o avesso que a cidade histórica teima em ocultar (Gordon, 2008; Sterling 2020), suas memórias traumáticas. Dessa maneira, desvelar o que está oculto guia o trabalho do artista tanto no sentido de perscrutar-se quanto na intenção de escavar a cidade, acessando o que está imaterial nela – suas memórias não patrimonializadas.
Referências bibliográficas
Adams, T.; Ellis, C.; Jones, S. (2015). Autoethnography: Understanding Qualitative Research Series. New York, NY: Oxford University Press;
Bachelard, G. (2001). O ar e os Sonhos: ensaios sobre a imaginação do movimento. São Paulo, SP: Editora Martins Fontes;
Chang, H. (2008). Autoethnography as method. Walnut Creek, CA: Left Coast Press;
Debord, G; Jacques, P. B. (2003). Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra;
Durand, G. (2012). As estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Martins Fontes;
Gordon, A.F. (2008). Ghostly Matters: Haunting and the Sociological Imagination. University of Minnesota;
Grotowski, J. (2010). O Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski 1959-1969. São Paulo, SP: Editora Perspectiva;
Halbwachs, M. (1990). A memória coletiva. São Paulo, SP: Editora Vértice;
Lynch, Kevin. (2011). A imagem da cidade. São Paulo, SP: Editora Martins Fontes;
Merleau-Ponty, M. (2018). Fenomenologia da percepção. São Paulo, SP: Editora Martins Fontes;
Moya Pellitero, A. M. (2007). The image of the urban landscape: the re-discovery of the city through different spaces of perception. Phd Thesis: Technische Universiteit Eindhoven;
Pallasmaa, J. (2013). A Imagem Corporificada: Imaginação e Imaginário na Arquitetura. Porto Alegre: Bookman;
Ricoeur, Paul. (2008). A memória, a história, o esquecimento. Tradução Alain François [et al.]. Campinas, SP: Editora da Unicamp;
Rodrigues, P. S. (2019). “Conservação Criativa: o Património como mudança e inovação”. In O Devir do Comum. Arte Participativa, Co-design, Envolvimento Social. p.12-13. Évora: CHAIA-Universidade de Évora, Fundação Aga Khan Portugal;
Sartre, J-P. (2008). A imaginação. Porto Alegre, RS: L&PM Pocket;
Stanislavski, C. (1994). A preparação do ator. Rio de Janeiro, RJ: Editora Civilização Brasileira;
Sterlin, C. (2021). “Becoming Hauntologists: A New Model for Critical-Creative Heritage Practice”. In Heritage & Society. V 14, p.67-86. England: Taylor & Francis Group.
Amanda Gonsales é Bacharela em Música Popular (Voz) e Mestra em Artes da Cena (Dança) pela Unicamp, tendo feito um intercâmbio durante a graduação para a Universidade de Évora em Portugal, onde atualmente cursa o Doutoramento em História da Arte. Debruçando-se sobre a relação entre Voz e Movimento, teve contato com grandes profissionais da área como Linda Wise, Tadashi Endo e Carlos Simioni. Além disso, seu interesse em Processos Criativos gerou três espetáculos e investigações feitas ainda durante a sua formação, que encaminharam Amanda para o seu trabalho de estreia a nível mundial intitulado “Sacro”, que desdobra-se em EP e performance. O EP foi lançado pela gravadora italiana Wormholedeath e contou com a Direção Vocal de Francesca Della Monica, já o espetáculo logrou duas turnês por diversas cidades portuguesas integrando a programação de Festivais de Teatro, tendo Naomi Silman na Direção e Yael Karavan na Preparação Corporal. Em seu Doutoramento, Amanda investiga a relação entre a Criação Artística e o Patrimônio Histórico da cidade de Évora – que deu origem ao seu trabalho artístico.
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