Daniela Salazar (CHAIA-UÉVORA/ IHA-FCSH/IN2PAST)
Museu ou o caminho tortuoso para uma definição
Seria, talvez, mais simples propor uma qualquer entrada para um dicionário convencional, estabelecendo, com as dedutíveis limitações, uma definição para o conceito de Museu. Ainda que se tratasse de uma definição meramente pessoal e alimentada pelas referências que acompanham essa perspetiva.
Pensar numa entrada para o conceito de ‘Museu’ enquadrado num exercício crítico e generativo coloca uma maior responsabilidade numa proposta de problematização teórica, mas também prática, nomeadamente à luz de um dos conceitos que também orientam a discussão colaborativa deste projeto: fenda/ fissura.
Foi na busca por esses espaços de ausência, vazios, em potência ou em latência do processo de elaboração da mais recente definição oficial de Museu pelo ICOM (2022) que considerei focar esta entrada.
Na 25th Conferência Geral do ICOM, em Kyoto, em Agosto de 2019, com o mote geral de ‘Museums as Cultural Hubs: The Future of Tradition’, foi discutida, uma vez mais, a urgência da revisão da definição do conceito de ‘Museu’, procurando que esta fosse um reflexo das novas problemáticas da contemporaneidade, do futuro e que versasse de forma mais clara, valores mais inclusivos e diversos. De forma disruptiva, foi colocada a votação uma proposta que gera uma sessão intensa de debate e uma grande divisão entre os representantes das diversas delegações nacionais presentes, contrapondo uma vertente mais progressista e outra mais conservadora da assembleia:
“Museums are Democratizing inclusive and Polyphonic Spaces for Critical Dialogue about the pasts and the futures. Acknowledge and addressing the conflicts and challenges of the present, they hold artifacts and specimens in trust for society, safeguard Diverse Memories for future generations and guarantee equal rights and equal access to heritage for All People. Museums are non-profit. They are participatory and transparent and work in active partnership with and for Diverse Communities to collect, preserve, research, interpret, exhibit and enhance understandings of the world, aiming to planetary well-being” (ICOM, 2019)
Desta primeira proposta sobre a qual não se chega a uma votação conclusiva, o ICOM avança para um processo metodológico que permitisse uma verdadeira auscultação e contribuição de todas as delegações e membros cujo objetivo seria a formalização de uma nova definição, mais consensual e representativa.
John Fraser fala desta primeira proposta como ‘a discomforting definition of museum’ e que no seu processo de discussão fez emergir as reservas, hesitações e conservadorismos culturais e políticos ainda tão marcados nestas instituições: “the resurgence of fascism, intolerance, and human trafficking of displaced people are all evidence that the aspirational definition cannot be easily reconciled with how museums are part of our current political world. Moreover, it suggests a thin veneer of social acceptability as an apology for the persistent use of museums in service of a political elite” (FRASER: 2019)
Este repto de mudança gerou um esforço, mas também um maior controlo pelo processo de constituição de uma nova definição. É criada a Standing Committee for Museum Definition, responsável pelo desenvolvimento metodológico de um total de quatro ‘consultas’ entre o início de 2020 até Agosto de 2022.
Deste processo de auscultação, discussão e sistematização, resulta e vai a votação em Agosto de 2022 com 92,41% (a favor: 487; contra: 23; abstenção: 17) aquela que viria a ficar como a definição democraticamente aceite pela estrutura do ICOM:
“A museum is a not-for-profit, permanent institution in the service of society that researches, collects, conserves, interprets and exhibits tangible and intangible heritage. Open to the public, accessible and inclusive, museums foster diversity and sustainability. They operate and communicate ethically, professionally and with the participation of communities, offering varied experiences for education, enjoyment, reflection and knowledge sharing.” (ICOM, 2022)
Das diversas abordagens conceptuais, éticas, políticas e metodológicas deste processo, gostaria de me debruçar sobre as fissuras e ausências que emanam desta definição, nomeadamente tendo em conta o seu primeiro enunciado. Que reverberações encontramos destas fissuras noutras vozes ou práticas?
Em 2015, o filme Francofonia (Sokurov) fala do museu, fortaleza cultural e identitária, e na forma como resiste ou se adapta a tempos de conflito. Foi um pouco esse embate da fortaleza com a porosidade e permeabilidade que se lhe exige em tempos de conflito bem como de uma resistência urgente e de uma tomada de posição (Didi-Huberman: 2009) que este processo de formulação de uma nova definição convoca. Partir do que define Agamben (2009) enquanto metodologia ou ponto de partida para olhar o lugar do contemporâneo, ou neste caso, do museu contemporâneo, aquele que se posiciona, que se assume enquanto lugar liminal, de análise, de interpelação, de enunciação do outro, de amplificação de vozes, do dissonante.
E numa intenção de reverberar as fissuras de um processo de formalização desta definição, convoco, três visões urgentes.
François Vergès lança em 2024 a obra A Programme of Absolute Disorder: Decolonizing the Museum, no qual adapta a sua visão radical, feminista e acutilante em direção à estrutura institucional que perpetua, também ela, um regime que está ainda por decolonizar. Na sua abordagem, Vergès propõe desordenar, desarrumar, desestruturar as hierarquias e os sistemas de categorização: “Capitalism has shown its capacity for colonising the mind. It feeds us aspirations (goods, smartphones, speed, ‘modernity’) and encourages us to ignore the cost of these aspirations. A programme of absolute disorder takes time. Disorder should not be thought of as chaos, but as a process of relinquishing and creating, while saving what needs to be saved.”(Vergès, interviewed by Sarah Julani in https://artreview.com/the-disordered-museum-francoise-verges-interview-sarah-jilani/).
Um dos tópicos que Vergès procura “desarrumar” é precisamente a ideia de que o reconhecimento é equiparável ao processo de decolonizar: “When people in power understand that a certain form of inclusion does not threaten them, they are ready for it. So we must acknowledge that recognition is not the end of the fight. If a museum recognises those who were/are excluded, it will be an act of justice. But it is not decolonisation, because the institution itself was built on their dehumanisation, and everything they held dear or sacred – masks, toys, statues, signs of power or of the mundane – entered its halls on the condition that they become dead.” (Vergès interviewed by Sarah Jilani in https://artreview.com/the-disordered-museum-francoise-verges-interview-sarah-jilani/)
Neste sentido, Vergès propõe que se possa imaginar um pós-museu (o qual emergia desse programa de desordem absoluta que herda de Frantz Fanon), o museu onde não seria possível a desigualdade social, um museu que repudiasse a pacificação e que fosse, acima de tudo, um campo de batalha: “A tese deste livro inscreve-se no movimento irreversível de contestação do museu (…). E as lutas do Black Lives Matter, as lutas contra a ocupação da Palestina, a islamofobia, os feminicídios, a transfobia e contra o estado de guerra permanente alimentam os debates em torno da representação. É um movimento que se opõe ao anti-racismo liberal e às políticas governamentais de diversidade e de inclusão segundo as quais a entrada de objectos e de narrativas de uma luta no museu faz parte da pacificação” (Vergès: 2024, 33). Este pós-museu seria um lugar que não seguisse mais as normas de funcionamento, de categorização, de exposição e relação com as comunidades que têm sido o modus operandi dos grandes museus universais, detentores das narrativas, aprisionando memórias, vozes e outras formas de olhar o mundo:
“É permitir saltar no imaginário, perguntar se os elementos do museu universal deverão conservar-se, ver o que já propõem alguns museus comunitários, museus efémeros, colectivos de artistas e activistas, e voltar a mergulhar nas estéticas anticoloniais, antifascistas, anti-imperialistas, feministas, queer e indígenas. É não fechar o futuro. Muito pelo contrário, é abri-lo: irmos além da crítica da instituição existente para trabalhar no que serão as nossas instituições decoloniais, feministas, anti-racistas, anticapitalistas e anti-imperialistas.”(Vergès: 2024, 24)
E a partir destas fissuras interpelativas e de construção coletiva e horizontal, recorro justamente ao “Museo Interpelado” de que nos fala Manuel Borja-Villel, num relato entre a teoria e a prática dos museus de arte moderna e contemporânea de relevância nacional em Espanha mas que se debatem com a revisão das narrativas históricas, das práticas artísticas, da relação com ecossistemas diversos e em tensão e que têm como principal função: questionar, questionar, questionar!
Para o autor, o museu interpelado é aquele que permite que se estabeleçam relações horizontais com o seu exterior, com as comunidades que ficam além das suas paredes, não só enquanto um ato radical, de dissenso e resistência a um status quo institucional:
“La interpelación, el acto del habla que permite hablar al que queda fuera de nuestra construcción discursiva, es decir, quien está fuera de nuestro sistema de inteligibilidad, deviene una posición necesariamente ética. Es el momento de una cierta exterioridad, de un ser otro, diferente de la comunidad institucional oficial, que solo defiende sus intereses. El hecho de interpelar, al actuar siempre desde el exterior del derecho vigente, se opone por definición al consenso y a la historia que excluye; y su argumentación es siempre radical y difícilmente aceptada.” (Borja-Villel: 2009, 29).
Para desordenar, para ser outro o caminho e outras as vozes, sejam humanas, mais-que-humanas, é preciso o posicionamento político de interpelar e sonhar, sonhar o museu que se quer:
“Queremos o museu que nos é devido ou apenas aquele que nos é dado? Que lugar queremos que este museu, que sonhamos, tenha na nossa comunidade?” (Oliveira: 2015, 2)
O Museu a Haver é o título da exposição patente no Fórum (atual Centro de Arte e Cultura) da Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, entre Abril e Setembro de 2015, com curadoria de Filipa Oliveira. A curadora convoca um conjunto de 24 artistas/ coletivos artísticos nacionais e internacionais, cujos trabalhos se debruçam sobre lugares de comunidade, problematização, aprendizagem, diversidade e de novas narrativas e que, em diálogo com o espaço expositivo e o património cultural indicam ou deixam vislumbrar possibilidades de direção, questões ou alternativas, também, para o lugar de museu a que aspiramos, que está ainda por concretizar. Nesse acto de aspiração, Filipa Oliveira deixa algumas alternativas que regressam, novamente, à necessidade de virar o museu do avesso, desordenar:
“Um espaço alternativo ou um espaço para o pensamento alternativo, para todos os tipos de pensamento. Um lugar que cria sinergias ao invés de alimentar a fragmentação do nosso tecido cultural. O museu como ferramenta, como um labirinto de caminhos invisíveis, como uma experiência em construção. Um museu que está a aprender a ser museu.Parafraseando o artista Fred Wilson, sonho com um museu onde tudo pode acontecer, onde o mundo está virado ao contrário.” (Oliveira, 2015, 5)
Referências:
Didi-Huberman, Georges, Quand les images prennent position: L’œil de l’histoire I, Paris, Minuit, 2009.
Fraser, John, “A discomforting definition of museum” in Curator The Museum Journal, vol. 62, issue 4, 2019, pp. 501-504. https://doi.org/10.1111/cura.12345
Jilani, Sarah, “The Disordered Museum – interview with François Vergès”, in Art Review, September 2024, online: https://artreview.com/the-disordered-museum-francoise-verges-interview-sarah-jilani/
Oliveira, Filipa (ed.), Como é o museu com que sonha?, Évora, Fundação Eugénio de Almeida, 2015.
Placensia, Clara, Faus, Cláudia (ed.), Objetos Relacionales: Colección MACBA 2002-2007, Barcelona, MACBA – Museu d’Art Contemporani de Barcelona, 2009.
Soares, Bruno Brulon, “Decolonising the Museum? Community Experiences in the Periphery of the ICOM Museum Definition”, in Curator Museum Journal, vol. 64, issue 3, 2021, pp. 439-455. https://doi.org/10.1111/cura.12436
Vergès, François, Decolonizar o Museu: programa de desordem absoluta, Orfeu Negro, 2024.f Absolute