Guerra Fria

GUERRA FRIA

Rui Lopes  (IHC-FCSH/IN2PAST e BIRBECK UNIVERSITY)

A ‘Guerra Fria’ foi uma guerra imaginária.

Desde o seu início, na segunda metade da década de 1940, até ao desenlace, no início dos anos 90, bem como na subsequente memória e estudo historiográfico, este conflito permanece relativamente indefinido, interpretado ora como uma era de tensão entre blocos europeus separados pela chamada ‘cortina de ferro’ e liderados por superpotências – a União Soviética a leste e os Estados Unidos da América (EUA) no ocidente – movidas por interesses práticos como a busca de poder, segurança e lucro; ora como um choque entre a deriva dos EUA para globalizar o seu modelo capitalista e a consequente resistência anti-imperialista; ora como uma política de defesa perante o expansionismo soviético; ora como uma competição entre conceções de modernidade antagónicas e universalistas, disputadas entre e dentro dos vários países do mundo. Se o termo ‘guerra’ remete para a rivalidade violenta e totalizadora que subjaz a todos estes entendimentos, já o qualificativo ‘fria’ especifica a sua originalidade: não foi uma guerra convencional, pois o arsenal nuclear das superpotências supostamente impediu um confronto militar direto.

Não quer isto dizer que a Guerra Fria não tenha tido drásticas e tangíveis manifestações. À proliferação de material bélico e de barreiras letais (como o Muro de Berlim, construído em 1961), juntam-se variados golpes de Estado e práticas repressivas, bem como conflitos armados localizados, sobretudo no chamado Terceiro Mundo. Da corrida ao armamento à conquista do espaço, passando pela busca de superioridade em diversos outros campos, pragmáticos ou simbólicos, o esforço de guerra traduziu-se num vasto impacto socioeconómico, tecnocientífico e ambiental, com efeitos por vezes contraditórios mas certamente palpáveis.

Não obstante, é a imaginação quem cria, move e prolonga a Guerra Fria. Não houve nada de automático na doutrina de política externa adotada pelo governo dos EUA após a II Guerra Mundial, que priorizou a ‘contenção’ do comunismo e da União Soviética, entrelaçando competição ideológica e geopolítica. Tomou como base as ideias subjetivas do diplomata George Kennan, moldadas por ansiedades pessoais e por floreados de linguagem especialmente impactantes. Tal como a Guerra Fria, também a famigerada Cortina de Ferro foi antes de mais uma metáfora: ao estabelecer um mapa mental dividindo rigidamente o continente europeu, esta imagem (popularizada por Winston Churchill em 1946) não traduzia, à partida, uma descrição objetiva da ordem mundial, mas sim uma interpretação que se foi tornando hegemónica. As elites políticas e intelectuais aceitaram tacitamente a imposição de esferas de influência na Europa, exigida por Estaline na Conferência de Ialta, em 1945, naturalizando como ‘realista’ a ideia de países subordinados à defesa das superpotências e alastrando-a para o mundo pós-colonial, complementando-a com outras metáforas simplificadoras das relações internacionais, do ‘xadrez’ geoestratégico à ‘teoria do dominó’. Sob a forma de invasões, conspirações e ataques nucleares, a Guerra Fria foi sendo travada – e determinada – no campo da imaginação, através de simulações, perceções, sonhos, anseios e ameaças.

Se a dimensão imaginária foi central na Guerra Fria, no entanto, a dimensão material foi central na codificação – e na própria disputa – da imaginação. Mapas, caricaturas, propaganda e retórica repetida por diplomatas, analistas e jornalistas unificaram processos políticos e militares ocorridos em diferentes cantos do planeta ao longo de quatro décadas e meia – da Coreia ao Irão, da Guatemala ao Afeganistão – sob a égide de uma única guerra. Também as indústrias culturais ajudaram a reificar e a interiorizar o estado de guerra: romances de espionagem projetaram a rivalidade em curso, filmes de ficção científica visualizaram a ameaça de um futuro totalitário ou de um apocalipse nuclear, canções pop e outros produtos de entretenimento distribuídos em massa apresentaram a Guerra Fria como um estado de coisas consolidado. Aspetos elusivos da Guerra Fria – como as operações secretas, a luta por ideias de modernidade ou um suposto inimigo fora do alcance – tornaram-se concretas e visíveis em ecrãs, palcos, artes plásticas e bandas desenhadas com super-heróis. Mais do que espelhá-la ou distorcê-la, estes objetos materializaram a Guerra Fria.

Ao dar forma – e matéria – a uma guerra imaginária, expandiram-na e transformaram-na. Algumas obras foram como armas, urdidas ora por serviços de propaganda ora por militantes de base, sinceros ou oportunistas, ficcionando e encenando a Guerra Fria, refletindo deliberada ou acriticamente os seus antagonismos, reproduzindo preconceitos e a mundivisão dominante no seu campo. Outras atacaram, não o inimigo prescrito, mas a própria Guerra Fria, através da crítica, da dúvida, da paródia ou da autorreflexividade desconstrutiva do próprio poder da ficção. Muitas obedeceram a lógicas próprias, criativas, comerciais, industriais, adaptando-se às possibilidades de produção, aos interesses do mercado e a novas noções de consumo cultural, por vezes encerrando contributos contraditórios por parte dos diversos agentes envolvidos (escritores, atores, editores, etc), incluindo diferentes visões políticas. A resultante representação da Guerra Fria foi, portanto, múltipla e ambígua, recodificando o seu significado ao longo do tempo – processo, de resto, que se manteve até hoje, com narrativas mediáticas, dramáticas, académicas e outras que tal (como este texto) procurando dar sentido ao sucedido. 

A ‘Guerra Fria’ continua a ser uma guerra imaginária.